Informativo

Informativo Sindicor-RJ Março 2002

 

PULVERIZAR SEM MEIO TERMO

Pela terceira vez, o Governo volta a sua atenção para a necessidade de se promover a pulverização do mercado acionário. Petrobras, Vale do Rio Doce e, agora, Banco do Brasil, são pilares da economia nacional e excelentes escolhas para que se leve avante, no Brasil, aquilo que Peter Drucker chamou de socialização do capital.

 Qualquer caminho para a nossa economia que não passe pela formação de poupança interna direcionada ao investimento produtivo é equivocado e, sua discussão, perda de tempo.  Estamos no caminho certo, resta melhorar a forma.

 Se é bem-vinda a pulverização, que se pulverize de forma ampla e prioritária, como fizeram Inglaterra e Espanha. Na operação da Vale, o limite reservado para a venda pulverizada mostrou-se insuficiente, o que foi uma grande notícia no lado da demanda, mas um absurdo no lado da oferta. A sobra não deve ir para a venda em  bloco – essa fase já passou.

 Pode ter sido estratégica em casos como o Sistema Telebrás, que requeria grandes investimentos, sobretudo em tecnologia. Mas, agora, não tem mais sentido, a não ser agraciar uns poucos privilegiados, inclusive do exterior. Para a venda em bloco poderia ser destinada a sobra da sobra, ou , caso haja ações não vendidas, que estas continuem com o Governo, esperando a recomposição da demanda. Não há por que ter pressa, depois de se esperar tanto tempo e se perder tantas chances. O importante é fazer bem feito.

 

A democratização deve contemplar não só quem compra as ações, mas também quem trabalha pela sua venda.

 O modelo de distribuição das ofertas também deve ser aprimorado. A democratização deve contemplar não só quem compra as ações, mas também quem trabalha pela sua venda. Estabelecer um limite mínimo para se

 fazer jus a uma comissão é uma política arbitrária, marginalizante e contraproducente ao próprio sucesso da operação, acrescendo-se que pisos como R$ 500 mil podem razoáveis para corretoras do Rio de Janeiro, São Paulo e outros estados mais abastados, mas não para muitas instituições dos demais estados.

 Um modelo francamente pulverizador deve, ao contrário, privilegiar as corretoras. São justamente elas que, de um lado, já lidam com clientes não avessos a esse tipo de investimento, e, de outro, já possuem a expertise necessária para “catequizar” a grande parcela da população que permanece resistente ao produto.

 Nesse ponto, é necessário lembrar que o saldos do FGTS  não  são  inesgotáveis, nem  a disposição do Governo em aceitá-los como moeda, por isso será cada vez mais importante contar-se com profissionais que sabem realmente vender o produto. Uma coisa é convencer-se alguém que 3% ao ano mais TR é pouco, outra é mostrar-lhe as vantagens de diversificar outras aplicações concentradas em ativos mais atraentes. A simples percepção do custo de oportunidade dá então lugar à necessidade de mudança de mentalidade.

 Para que esta mudança ocorra, a experiência positiva do trabalhador com os primeiros investimentos feitos com o seu  FGTS até irá contribuir, mas não será suficiente. Como percebeu Charles Merryll, que nas primeiras décadas do século passado formou e enviou equipes de porta em porta em vários estados americanos para explicar ao cidadão comum as vantagens para o indivíduo e para a nação do investimento em ações, é preciso de gente que faça isso. No Brasil já existe essa gente, uma ainda numerosa classe de profissionais plenamente gabaritados e interessados, que reivindicam o seu quinhão de trabalho neste processo de pulverização pelo qual sempre bradaram.

 Congratulamos o Governo e, mais especificamente, o BNDES, não só pela excepcional iniciativa de pulverizar a venda de ações do Banco do Brasil, como pela anunciada intenção de listar o ativo no Novo Mercado da BOVESPA, podendo-se tornar um verdadeiro símbolo deste novo e importante segmento de nosso mercado de capitais. Mas deixamos aqui nossa reivindicação para que o modelo desta próxima oferta pulverizada já contemple uma maior participação da laboriosa e capacitada categoria de corretores de valores mobiliários.

 Francisco de Paula Elias Filho – Presidente

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