Informativo Sindicor-RJ
(Maio-Agosto 2011)
Carlos Reis avalia combate à corrupção no Governo
Em seu artigo “Faxina ética”, Carlos Reis analisa a ação das instituições federais que, ao realizar investigações, provocaram uma série de demissões nos altos escalões do Governo federal. “O temor de que sua base aliada bata em retirada (…) não pode nem deve alterar a atitude da presidente”, afirma. Reis alerta que a ação das instituições não conseguirá acabar com um problema cuja origem está na forma como a democracia se estabeleceu no país. “O loteamento dos chamados cargos de confiança impede que três critérios básicos sejam utilizados quando se torna necessário preencher uma vaga, seja em que escalão for: impessoalidade, profissionalismo e mérito”, comenta. (Página 2)
Para Constantino, “tea party” tem papel importante a cumprir
Em entrevista ao Informativo Sindicor-RJ, o economista Rodrigo Constantino analisa a crise mundial e, entre outras observações, comenta que os Estados Unidos hoje se parecem cada vez mais com os governos europeus, ainda que em graus distintos e com diferenças importantes, ressalva. “O governo americano torrou trilhões em guerras, e seu banco central manteve por tempo demais uma política de juros reais negativos”, diz. Vencedor do Prêmio Libertas em 2009, no XXII Fórum da Liberdade, Constantino acredita que os ultraliberais (“tea party”) “têm, sim, um papel importante ao colocar o dedo na ferida, mostrando que algo urgente deve ser feito para conter a hemorragia fiscal”. (Página 3)
Crise traz perdas à BM&FBovespa
O agravamento da crise na Europa tem produzido reflexos nas bolsas de todo o mundo e também para a BM&FBovespa, que em julho fechou em 58.823 pontos. Mas para o analista Rodrigo Constantino, talvez esta seja uma boa hora para investir. “Isso normalmente se dá quando há muito pessimismo ou mesmo pânico nos mercados. Creio que estamos nessa fase agora” (Página 4)
Faxina ética
Carlos Reis
Muito bem-vinda a política de saneamento ora em curso no Governo Federal, que não tem poupado, ao contrário de outras ocasiões, nem mesmo os escalões mais altos da burocracia. Nestes primeiros oito meses de governo, as denúncias sobre corrupção têm sido abundantes, e os comentários de que a apuração de desvios de verbas públicas, fraudes em licitações etc poderiam provocar instabilidade política não me parecem razoáveis. A presidente Dilma Roussef tem evitado se imiscuir no encaminhamento das denúncias, deixando as apurações com as instituições credenciadas para tal, e já começa a receber apoio da sociedade civil para que o processo não seja interrompido, como a criação da Frente Suprapartidária Contra a Corrupção e a Impunidade, lançada por senadores de diversos partidos.
O temor de que sua base aliada bata em retirada a partir da entrega de cargos, como a estratégia adotada pelo PR, que declarou-se “independente” ao ter nomes que ocupavam “cargos de confiança” afastados às dezenas por malversação do dinheiro público, não pode nem deve alterar a atitude da presidente. A miríade de partidos que compõem a sustentação do Governo, caso venham a ter seus quadros atingidos por futuras investigações, ficarão em uma situação no mínimo constrangedora se começarem a retirar seu apoio à medida que novas denúncias sejam comprovadas. Estarão, simplesmente, passando para os eleitores a impressão de que concordam com a corrupção de seus correligionários – o que pode significar o suicídio eleitoral dos políticos que compactuarem com este discurso.
No médio prazo, esta limpeza pode trazer reflexos extremamente positivos para a economia brasileira, com aumento de eficiência e redução dos custos que o controle sobre a corrupção poderá proporcionar no valor das obras públicas, por exemplo, frequentemente superfaturadas para cobrir a distribuição de propinas entre os políticos envolvidos com a aprovação de emendas parlamentares e substitutivos, que muitas vezes favorecem empresas doadoras das campanhas desses mesmos políticos.
Mas é engano pensar que bastará a ação de Ministério Público, Receita Federal, Polícia Federal, Controladoria Geral da União e outras instituições para acabar com esta doença que há décadas reduz a competitividade da economia brasileira e corroi os valores da sociedade. Esta crise é fruto da forma de democracia que se estabeleceu no país, em que o loteamento dos chamados cargos de confiança impede que três critérios básicos sejam utilizados quando se torna necessário preencher uma vaga, seja em que escalão for: impessoalidade, profissionalismo e mérito.
No Brasil, há mais de 10 mil cargos de confiança, de nomeação direta, abrindo espaço na burocracia para o predomínio de ineficiência, clientelismo, nepotismo, superfaturamento e todos os males associados à corrupção, que conhecemos de longa data. Um mudança verdadeira neste sistema teria que, necessariamente, incluir uma reforma político-partidária, que impeça que partidos políticos nacionalmente inexpressivos acabem tendo uma participação importante no preenchimento de cargos e ainda usem seus votos em barganhas no Congresso Nacional.
Não faria mal também à máquina pública uma redução no número de representantes no Congresso Nacional. Só para efeito de comparação, enquanto no Brasil são eleitos três representantes no Senado para cada unidade federativa, nos Estados Unidos são apenas dois. Na Câmara, a discrepância é ainda maior: 435 deputados representam 50 estados americanos, enquanto no Brasil há 513 deputados representando 27 estados. Uma reforma como esta, se fosse estendida às assembleias legislativas e câmaras municipais, reduziria enormemente as despesas de custeio, aumentando a disponibilidade de verbas para investimentos onde realmente se faz necessário e, traria, por consequência, um aumento vigoroso na eficiência do Estado e da economia como um todo, sem falar do resgate de valores tão caros à maioria da sociedade.
Entrevista: Rodrigo Constantino
“Governo americano precisa sinalizar que será responsável a partir de agora”
Economista graduado pela PUC-Rio, com MBA em Finanças pelo IBMEC, Rodrigo Constantino atua no mercado financeiro desde 1997, como analista de empresas e gestor de portfólio. Atualmente, é sócio da Graphus, onde é responsável pela análise macroeconômica, além de ser colunista dos jornais O Globo e Valor Econômico. Nesta entrevista, Constantino analisa alguns aspectos da crise econômica mundial e, entre outros assuntos, comenta o encaminhamento que vem sendo dado pelo Governo à crise no país. “Acredito que o Brasil perde uma incrível oportunidade de fazer o dever de casa e entrar numa rota de crescimento sustentável. (…) O governo não fez uma única reforma estrutural, não simplificou nem reduziu impostos, não flexibilizou as leis trabalhistas, não reformou a Previdência” – disse Constantino, autor de seis livros e membro-fundador do Instituto Millenium.
- Alguns analistas sugerem que a crise europeia poderia ser superada se os países mais afetados se espelhassem nas soluções adotadas pelos países da América Latina nos anos 1990, a começar pela reestruturação das dívidas externas, privatizações, saneamento do sistema financeiro, aumento da produtividade etc. O sr. concorda?
A crise é estrutural. Logo, demanda soluções estruturais. A Europa vive há décadas com governos que gastam mais do que arrecadam, mesmo que tal arrecadação já esteja na faixa dos 50% do PIB. É o modelo que está em xeque. A enorme quantidade de privilégios e “conquistas trabalhistas” retirou a competitividade de suas economias, e um esquema piramidal de Previdência Social está prestes a implodir agora que a demografia joga contra, por causa do envelhecimento populacional. Não há outra saída além de privatizar estatais, flexibilizar leis trabalhistas, reduzir encargos e impostos, reformar a Previdência e cortar gastos públicos. A Europa precisa enfrentar a dura realidade e voltar a ser competitiva no mundo globalizado.
- E quanto aos Estados Unidos, que já exibem alta produtividade, tamanho reduzido do Estado etc, qual seria o receituário a ser aplicado? Os ultraliberais (”tea party”) teriam uma solução para os problemas criados pelos neoliberais?
Os problemas americanos são de natureza similar aos dos europeus, ainda que em graus distintos e com diferenças importantes. O governo americano torrou trilhões em guerras, e seu banco central manteve por tempo demais uma política de juros reais negativos. O governo Obama tem cometido inúmeros erros, jogando mais lenha na fogueira. Sua retórica contra os mercados atrapalha, sua arbitrariedade regulatória gera incertezas, sua reforma na saúde impõe gastos explosivos e insustentáveis à frente. Já foi o tempo em que o governo americano tinha tamanho reduzido. Hoje, ele se parece cada vez mais com os governos europeus. Acredito que o “tea party” tem, sim, um papel importante ao colocar o dedo na ferida, mostrando que algo urgente deve ser feito para conter a hemorragia fiscal. O governo americano precisa sinalizar aos investidores que será responsável a partir de agora, e o Fed (banco central) deveria parar com estes estímulos absurdos.
- Qual a sua opinião sobre o encaminhamento que o Governo Dilma está dando à economia brasileira nesta nova fase da crise econômica mundial?
Minha opinião não é das melhores. Acredito que o Brasil perde uma incrível oportunidade de fazer o dever de casa e entrar numa rota de crescimento sustentável. Hoje ainda dependemos muito do crescimento chinês e dos termos de troca, ou seja, da valorização daquilo que exportamos frente ao que importamos. O governo não fez uma única reforma estrutural, não simplificou nem reduziu impostos, não flexibilizou as leis trabalhistas, não reformou a Previdência. Não ocorreram investimentos relevantes em infraestrutura nem melhorias na educação. Apenas aproveitou o bom momento externo, de alta valorização das commodities e reduzida taxa de juros nos países desenvolvidos, para inchar seus gastos e distribuir crédito público. A inflação ameaça sair de controle e os pilares do crescimento são frágeis.
- Quais as perspectivas para o investidor em bolsa brasileira, que assiste à economia real resistindo bem à crise e, simultaneamente, às ações se desvalorizando progressivamente?
Ao que parece, a bolsa brasileira já precificou bastante notícia ruim, tanto que apresenta uma das maiores quedas no ano. Mas, como disse acima, os fundamentos não são tão bons assim. Nossa fase de pujança ainda depende muito de fatores exógenos. Como o governo não fez o dever de casa, a taxa de juros permanece pressionada. Em janelas longas, o investidor de bolsa dificilmente ganha da renda fixa, quando ajustado pelo risco (volatilidade). Ser “rentista” no Brasil ainda é um negócio lucrativo, graças ao governo gastador que temos. Por isso considero essencial ao investidor buscar bons pontos de entrada na bolsa. Isso normalmente se dá quando há muito pessimismo ou mesmo pânico nos mercados. Creio que estamos nessa fase agora.
Números do mercado
A seguir, os principais números do mercado de capitais. Fonte: BM&FBovespa.
A BM&FBovespa fechou em 58.823 pontos em julho, contra 62.403 pontos em junho, com volume médio de negócios de 5.697,0 milhões, frente a R$ 5.913,9 milhões no mesmo período. Em agosto, a bolsa apresentou até o dia 24, data de fechamento desta edição, variação negativa, fechando em 53.786 pontos.
A participação dos investidores ficou assim distribuída em julho e junho, respectivamente: 32,7% investidores estrangeiros, ante 34,7%; 23,6% pessoa física, ante 20,9% no mesmo período; 34,8% investidores institucionais, frente a 33,5%; 7,6% instituições financeiras, contra 9,4%; 1,1% empresas, ante 1,4% no mesmo período.
Maiores altas (Janeiro a julho) Tim Part. S/A PN: 42,88% Tim Part. S/A ON: 36,90% Cielo ON: 33,89% Redecard ON: 32,10%
Eletropaulo PN: 30,82%
Maiores baixas B2W Varejo ON: – 53,48% GOL PN: – 51,77%
Hypermarcas ON: – 46,79
Usiminas PNA: – 41,38%
Gerdau PN: – 37,76%


