CRISE E OPORTUNIDADE
Temos notado, com preocupação, as análises sobre os problemas nos mercados de capitais no Brasil e no exterior, atribuindo-se os movimentos quase exclusivamente à globalização, o que resulta em comentários, após o fechamento dos pregões, de que a BOVESPA ou as bolsas européias acompanharam ou não acompanharam o desempenho da NYSE e da Nasdaq. Não há dúvida quanto à cada vez mais acentuada interdependência das bolsas, mas só o fato de a BOVESPA “não acompanhar” Nova York significa que o investidor brasileiro pode ter outras razões que não os aplicadores americanos para entrar ou sair do mercado ou, o que é mais freqüente, mudar de posição.
É preciso destacar as diferenças, algumas fundamentais, que existem entre a bolsa brasileira em relação à norte-americana para verificarmos que tais comentários, por seu simplismo, podem afastar investidores de nosso mercado, pois suas aplicações estariam muito mais dependentes do que ocorre no exterior do que propriamente do desempenho das empresas em que está colocando suas economias – o que é apenas parte da verdade. Por isso, julgamos importante apontar algumas diferenciações entre as bolsas de São Paulo e de Nova York.
A primeira delas é quanto ao valor de mercado das empresas. Enquanto no Brasil as ações estão muito abaixo do valor patrimonial das companhias, nos Estados Unidos elas foram infladas por uma bolha especulativa que o próprio presidente do FED vem denunciando há anos, chamando-a mesmo de irracional. Isso ocorreu com maior ênfase nas companhias de alta tecnologia, destaques para as de telecomunicações e pontocom, cujas projeções de lucros foram excessivamente otimistas e não levaram em conta dois fatores essenciais: a demanda foi superdimensionada e a velocidade de upgrades tornou cada vez menor a vida útil dos programas, não pagando os custos, normalmente financiados, de pesquisa e desenvolvimento, o que resultou em prejuízos contínuos e crescentes ante o endividamento e a redução das receitas.
Acresça-se a tudo isso as fraudes que acompanharam os balanços de muitas empresas, já que os executivos tinham a maior parte de sua remuneração baseada nos resultados das bolsas. A “exuberância irracional” das companhias, deslocada da realidade, foi beneficiada também por falhas na auditoria dos balanços e pela falta de atualização legal e da fiscalização das autoridades americanas, só agora retomadas, mas acabou provocando desastres como os casos da Enron e da WorldCom, gerando desconfiança geral nos investidores.
No Brasil, não padecemos desses problemas. Nossas ações estão aquém do desempenho e do valor patrimonial das empresas, mesmo de gigantes como Petrobrás, Vale do Rio Doce e principais instituições financeiras (cujos lucros são fantásticos), o que ficou ainda mais acentuado com a desvalorização do real – também irracional – neste segundo semestre, certamente influenciada pelas incertezas da campanha eleitoral. E nossos executivos não têm sua remuneração intimamente ligada ao desempenho das bolsas – até porque no Brasil isso não seria viável. Tem-se assim que nossos papéis são altamente atrativos, mas não têm liquidez.
E não têm liquidez principalmente por falta de investidores: a BOVESPA, segundo as últimas estatísticas, tem cerca de 70 mil investidores ativos, isto é, pessoas que compraram ou venderam ações nos últimos 12 meses (e que não devem ser confundidas com acionistas, já que somente a Vale do Rio Doce, na venda das ações em poder da União, ganhou 800 mil novos sócios). Nos Estados Unidos, o mercado de capitais faz parte do dia-a-dia dos cidadãos, estimando-se que sete em cada dez pessoas economicamente ativas têm ações de companhias americanas.
Esses dois pontos – baixo valor de mercado das companhias e reduzido número de investidores – podem ainda ser negativos, mas representam também a grande oportunidade de crescimento do nosso mercado de capitais. Basta que saibamos levar informações corretas aos milhões de potenciais clientes, despertando-lhe o interesse pelo mercado de capitais – e a Escola Nacional de Investidores que está por vir é um grande passo para isso, embora não exima a participação de todos os segmentos nessa cruzada. É preciso mostrar que bolsa não é cassino, mas a melhor aplicação de poupança de longo prazo e também a forma mais barata de capitalização das empresas para seus planos de investimento, gerando riqueza e empregos.
Temos certeza de que, aos poucos e sem esmorecimento, o mercado estará cumprindo o seu papel. Resta que as autoridades também façam sua parte, incentivando a abertura de capital das empresas e reduzindo os custos das companhias abertas, a começar pelo excesso de entraves burocráticos, de que é exemplo mais patente a obrigatoriedade de publicação das demonstrações financeiras em diários oficiais – como se alguém se orientasse ou buscasse informações sobre as empresas nesses veículos! Na era da Internet, é a comunicação das cavernas!
Francisco de Paula Elias Filho – Presidente
_____________________________________________________________________________________
Endereço: Rua da Assembléia 10 salas 2515/16 – Centro – Rio de Janeiro/RJ
Cep: 20119-900 – Tel: 2531-3124 e Fax: 2531-3129
Home page.: www.sindicorrj.com.br / e-mail.: sindicorrj@rio.matrix.com.br


