Informativo

Informativo Sindicor-RJ Abril 2002

RECOMENDAÇÕES IMPRÓPRIAS

 As recomendações que alguns bancos de investimentos estrangeiros fizeram a seus clientes, chegando a mudar de posição três vezes no espaço de quinze dias, mostram-se incoerentes e despropositadas. Isso principalmente porque foram feitas à luz de uma visão tecnicista e externa, sem atentar para os principais indicadores da economia brasileira e baseadas unicamente em pesquisas de intenção de voto – e nisso pecando também, porque ainda estamos longe de uma definição política para o próximo pleito.

Mesmo que o quadro eleitoral não se altere, o que não tem sido experiência mais comum nos últimos escrutínios presidenciais, é bastante claro que o país atingiu um nível de maturidade política e institucional que lhe permite experimentar outras linhas de governo sem colocar em risco os contratos assumidos, o direito à propriedade e o respeito aos demais poderes constituídos, assim como já sucedeu na França, na Espanha, em Portugal e em outros países.

 O problema criado em torno de uma simples aprovação de prorrogação de imposto, no caso a CPMF, demonstra o quanto é inviável pretender-se governar, no Brasil de hoje, de maneira autônoma e radical. Deve-se ainda considerar que, se um eventual governo de esquerda viesse a trazer de fato alguma melhoria na distribuição da renda real, tal seria bem-vindo não apenas para se compensar uma das maiores distorções do mundo no gênero, como para se possibilitar um aumento e uma pulverização da base de consumo, que encontra-se depauperada, não só para o infortúnio dos próprios excluídos, como da indústria, do comércio e do setor de serviços, inclusive a área financeira.

 Portanto, mesmo sem motivos para tantos temores, o fato é que eles surgiram, e os danos daquelas recomendações, algumas logo retificadas até mesmo pelas subsidiárias brasileiras e em outra pelo próprio banco internacional, já estavam feitos: as cotações dos títulos da divida pública brasileira despencaram, o dólar disparou e, com isso, a Bovespa perdeu para a Bolsa do México, pela primeira vez em muitos anos, a hegemonia de maior Bolsa da América Latina em valor de mercado. Tendo em vista o número de empresas listadas nas duas bolsas, com a brasileira superando com sobras a mexicana, a perda de posição se torna ainda mais inaceitável.

O que mais nos inquieta, porém, é que todo esse alvoroço provocado pelas análises apressadas e impensadas pode ter desdobramentos ainda mais graves: a taxa de juros tende a ser mantida nos elevados patamares que vêm asfixiando as nossas empresas e toda a economia, minguando investimentos e salários e impedindo o aumento do nível de emprego.

 A taxa de juros, aliás, é o grande calcanhar-de-aquiles do mercado brasileiro de capitais: enquanto estiver nesse teto absurdo, as bolsas vão continuar ilíquidas, com crescimento quase nulo, apesar de todos os avanços tecnológicos e operacionais que vêm sendo obtidos, da transparência do Novo Mercado e da disposição de investimentos até mesmo de trabalhadores, como é de bom exemplo o engajamento da Força Sindical em prol do mercado.

 Um mercado que mais uma vez se mostra unido, como é prova evidente a escolha do presidente da Bolsa de Valores de São Paulo, Raymundo Magliano Filho, para receber a Homenagem Especial do Prêmio Os Bem-Sucedidos, da revista Banco Hoje. Magliano, pelo seu trabalho em Brasília e em todos os movimentos de defesa do mercado de capitais, foi eleito pelos presidentes de todas as entidades – inclusive o Sincor-RJ – que operam em bolsa, que também escolheram o presidente da Abamec, Humberto Casagrande, na categoria Entidades. Essa última escolha teve uma particularidade: a indicação foi feita pelo presidente da Abrasca, Alfried Plöger, que tem, defendido, em várias ocasiões, posições diametralmente opostas à da Abamec. Parabéns a todos os Bem-Sucedidos: Roger Agnelli, da Vale do Rio Doce; Luiz Fernando Figueiredo, do Banco Central; Constantino Júnior, da Gol; Simon Alouan, do Ponto Frio (Globex); Carlos Henrique Brito Cruz, da Fapesp; e Ricardo Diniz, da Reuters Brasil.

 É animador ver, uma mesma premiação, tantos nomes positivamente correlacionados, direta ou indiretamente, com o mercado de capitais. Só por meio da união conseguiremos as vitórias necessárias para termos um mercado efetivamente grande, capaz de deixar o país menos vulnerável a análises abstratas e mais ancorado na própria realidade.

  Francisco de Paula Elias Filho – Presidente

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